O mercado não tem picuinha

Que fazer previsões não é nenhum passeio todo mundo sabe, ainda mais em uma economia volátil como a brasileira. Porém, atribuir erros de previsão à uma briga do mercado contra o governo beira ser uma teoria da conspiração — no sentido literal da coisa.

Para que haja uma torcida contra como o Sr. Cafardo sugeriu em um artigo às vésperas do Natal, as previsões têm de ter um erro sistemático do mercado como um todo, e não apenas erros da previsão média (ou mediana). Apesar de, sim, os dados de expectativas médias poderem ser lidos como medo de que a situação do país piore, a conclusão passa a ser outra quando nós levamos em conta a discordância entre os entrevistados.

Os dados trimestrais do PIB mostram que, na verdade, é incomum o mercado como um todo errar. Ao considerar a banda total de opiniões, verificam-se poucos períodos de erros sistemáticos (nos arredores da crise financeira de 2008 e no período pós-pandemia, começando em 2021 e não em 2023 como sugerido). Não aparenta haver nenhum tipo de viés sistemático contra qualquer governo em específico desde 2016. Olhando para a inflação mensalmente,1 há menos evidência ainda. Caso o mercado jogasse contra o governo para influenciar políticas econômicas (principalmente a monetária), nós veríamos padrões de erros persistentes.

Os dados anuais, seguindo a mesma lógica de dados do Sr. Cafardo de previsão um ano à frente, mostram uma figura similar: não existem alguns períodos viés sistemático contra algum governo, uma vez que a conjuntura tenha sido levada em conta.

Primeiro, há um leve viés negativo contra os governos na segunda metade do governo Lula 1, porém isso é marcado pela saída do então Ministro Antônio Palocci Filho (que foi chave em manter a economia nos eixos durante a transição FHC-Lula). Os erros de previsão durante Lula 2 são certamente marcados pela crise mundial do subprime.

Segundo, há vieses positivos durante os governos Dilma 1 e 2, indo diretamente contra o argumento do Sr. Cafardo. Não obstante, durante Dilma 1, a doutrina da Nova Matriz Econômica operava a todo vapor. O esgotamento do modelo ainda manteve o mercado esperançoso com a Fazenda sendo liderada por Joaquim Levy, que à época deu um alívio ao mercado mesmo sabendo-se que nem tudo o que foi prometido seria levado a cabo.

Terceiro, apesar do otimismo inicial no governo Bolsonaro, o pessimismo também rondou já em 2022. Considerando que as expectativas mostradas acima são do início do ano, que era ano eleitoral, e que candidatura de Lula deu-se somente em julho, até poderia-se argumentar que mercado jogou contra o governo ali — claro, apenas no caso que o então presidente fosse outra pessoa, mantendo o resto constante.

É difícil sustentar o ponto de que o mercado age contra governo tendo isso em vista. Considerando ainda que o Partido dos Trabalhadores governou por 17 dos últimos 23 anos, a tese de que o mercado tenha qualquer picuinha contra o governo de maneira sistêmica cai água abaixo.

  1. A pesquisa Focus disponibiliza taxas mês-sobre-mês, então eu calculei a taxa ano-sobre-ano. ↩︎

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